A era do terrorismo e da hipocrisia

O PKK tem uma longa história de tomar como alvo pessoas não relacionadas com a guerra, os políticos e os professores.

A era do terrorismo e da hipocrisia

No dia 9 de junho, um grupo de terroristas na localidade de Kozluk, em Batman, descarregou explosivos num carro roubado e disparou contra o automóvel do autarca Veysi Isik, tendo depois feito explodir um carro armadilhado nas proximidades de um posto de controlo da jandarmeria. Apesar do autarca Isik ter saído ileso, no ataque morreu a professora de música Senay Aybuke Yalcin de 22 anos, vítima de disparos. Caiu também mártir o soldado Soner Fazlioglu.

O último ataque do PKK foi ignorado maioritariamente pelos meios de comunicação internacionais. Com a exceção de algumas notícias em inglês na Turquia e no Daily Sabah, ninguém mostrou interesse pela morte trágica da jovem. Isto porque esta situação não se adequa com a perceção que se quer dar ao PKK e ao YPG – a ramificação do grupo terrorista na Síria. Aqueles que não perdem nenhuma oportunidade para dar sermões sobre a importância das negociações e do diálogo na luta contra o terrorismo na Turquia, arranjando justificações para o PKK, não sentiram necessidade de dar uma mensagem de pêsames ou de condenação por este vil ataque. O esforço do diálogo e de negociação é um conselho que nunca pode ser dado por parte da imprensa internacional aos países ocidentais, na suas lutas contra o terrorismo do DAESH ou da Al Qaeda. Esta realidade recorda-nos de que vivemos na era da hipocrisia e do terrorismo, cheia dos duplos critérios com que nunca nos confrontámos em mais nenhuma etapa da história.

O PKK tem uma longa história de tomar como alvo pessoas não relacionadas com a guerra, os políticos e os professores. O grupo assume a responsabilidade pelo massacre de mais de 150 professores desde 1 984. Os ataques contra os professores têm como objetivo minar a autoridade do estado, impedir as oportunidades escolares para as crianças curdas e fazer com que os professores não possam ou não queiram trabalhar nas cidades do leste e do sudeste da Turquia. Alguns dos ataques mais trágicos do PKK tomaram como alvo os professores e funcionários educativos. No primeiro dia de aulas, em setembro de 1 994, foram sequestrados de suas casas 6 professores do ensino público, tendo depois sido executados no centro de Tunceli. O povo local foi forçado a assistir a estes massacres. Um mês depois, os terroristas do PKK mataram 4 professores na localidade de Tekman, em Erzurum. Sem dúvida, estas notícias foram difundidas pelos meios de comunicação. Mas nunca permaneceram vivas na memória das pessoas, porque não coincidem com a “hipocrisia com que contam os terroristas do PKK, como se fossem bons, liberais e humanistas que lutam contra o DAESH”.

O PKK levou a cabo muitos ataques contra as forças de segurança, sem armas, o que à luz do direito internacional não são considerados combatentes. Para além destes ataques, o PKK matou cruelmente 33 soldados sem armas na estrada entre Bingol e Elazig, no leste da Turquia, em 1 993. Em novembro de 2 016, no ataque com um carro armadilhado contra um quartel militar em Kayseri, morreram 13 soldados e mais 36 ficaram feridos. Este ataque foi elogiado pelos órgãos de propaganda do grupo em países como a Áustria e a Alemanha.

Quando falamos destas questões com os responsáveis europeus, eles preferem esconder-se por detrás da liberdade de expressão. Desde quando se pode fazer propaganda a um grupo terrorista, abusando da liberdade de expressão? Será que os estados ocidentais permitem o elogio do terrorismo sob qualquer tipo de pretexto? É claro que não.

Além disso, e tal como aconteceu depois dos ataques terroristas executados nos Estados Unidos e na Europa, foram aumentadas as medidas de segurança para proteger os cidadãos por motivos razoáveis, e ninguém os poderá acusar por isso. Mas porque é que temos que lutar contra os duplos critérios e contra a hipocrisia, quando se trata da luta da Turquia contra o terrorismo?

Em muitos aspetos, é esta a abordagem típica do “é bom para o oriente” (bon pour l´orient). O centralismo europeu, que influi profundamente e se expande por todas as veias da ordem mundial atual, tem esta abordagem ao terrorismo. O terrorismo apenas é mau e tem que ser urgentemente resolvido, quando prejudica os interesses ocidentais. A cara feia do terrorismo, quando aparece noutros lugares, é uma questão que perde importância para o ocidente. Mas esta é uma postura que dispara sobre o próprio pé. Porque numa era em que é cada vez maior a dependência recíproca, ninguém pode desfrutar de segurança se não estiverem todos seguros. A história recente do terrorismo já nos fez aprender esta lição.

Nos últimos anos, os meios de comunicação do ocidente apresentaram os terroristas do PKK/YPG como um modelo exemplar. Enquanto continuavam os confrontos entre o DAESH e o YPG em Kobani, em outubro de 2 014, a revista francesa Marie Claire foi criticada por elogiar dois soldados criança, de 12 e 14 anos de idade, cujas fotos foram tiradas na frente do YPG. Os editores da revista, que verificaram a idade das crianças, descreveram estas crianças soldado como figuras impressionantes. E ainda hoje continuam os estudos para dar uma nova imagem aos terroristas, justificando os seus crimes. Num artigo publicado em março de 2 017, o New York Times fala das atividades de dois grupos terroristas como sendo “curdos seculares” e “militantes do DAESH” na Turquia, sem mencionar o nome do PKK. Noutra notícia, alega-se que os líderes do grupo terrorista PKK defendem a igualdade de género e que são a favor de dar missões tanto a militantes homens como a mulheres, com o objetivo de matar os inocentes.

A forma de dar lugar à morte de Senay Aybuke Yalçin na imprensa, ou a ausência destas notícias é, dito de forma suave, absolutamente horrível. Não reduz a dimensão dos crimes ou torna as suas vítimas artificiais. A falta de vontade do mundo para ver os terroristas do PKK enquanto matam as pessoas que os confrontam ou os pressionam. O pior é o facto deste mesmo grupo controlar agora uma zona do norte da Síria.

Segundo organizações como a Amnistia Internacional, o mesmo grupo comete crimes de guerra tanto contra aqueles que não são curdos, como contra os curdos opositores. As pessoas são presas ou forçadas a deixar as suas casas. Claro que os meios de comunicação ocidentais fazem chegar estas questões aos seus leitores de uma forma que não se transforma numa história recorrentes nem repetida milhões de vezes, nos contextos políticos. Numerosos meios de comunicação tentam escavar a memória das pessoas.

Enquanto acontecem todas estas situações, as professoras como Senay Aybuke Yalçin, que punha sorrisos nas redes sociais para celebrar a sua nomeação em outubro como professora em Batman, continuam a arriscar as suas vidas para oferecerem um futuro mais brilhante às crianças com muitas necessidades. É uma responsabilidade de todos nós, estar contra a hipocrisia na luta contra o terrorismo, manter os estudos e fazer viver as suas memórias.


Etiquetas: PKK , hipocrisia , terrorismo , Kalin

Notícias relacionadas