Análise à reaproximação entre a Turquia e o Irão

O estudo de Cemil Dogaç Ipek, doutorado em Relações Internacionais na Universidade Ataturk.

Análise à reaproximação entre a Turquia e o Irão

O Irão e a Turquia são duas potências regionais que partilham uma fronteira de 560 kms, cujas linhas se mantiveram inalteradas desde há cerca de 4 séculos. Para além da embaixada da Turquia em Teerão, a Turquia tem também um consulado geral em Tabriz e mais dois em Urmia e em Masshad. Por seu lado, o Irão conta na Turquia com a representação da sua embaixada em Ancara, e tem também consulados gerais em Istambul, Erzurum e em Trabzon.

A Turquia quer desenvolver as suas relações com o Irão, com base nos princípios do respeito, da boa vizinhança e da não interferência nas questões internas de ambos os países. Os dois países estão a fazer esforços para desenvolverem e fazerem avançar o diálogo político e as relações bilaterais, através das visitas recíprocas de alto nível que têm vindo a acontecer principalmente nos últimos tempos.

Um dos resultados do referendo ilegal de independência que teve lugar há uns dias no norte do Iraque, foi a reaproximação entre os dois países. Esta reaproximação é também vista por alguns como sendo a criação de uma nova aliança no Médio Oriente. De momento, é ainda cedo para classificar esta reaproximação como sendo uma aliança. No entanto, caso esta reaproximação se transforme numa aliança, tal não será uma surpresa.

Desde há muitos anos, a Turquia e o Irão foram concorrentes ao longo de uma vasta região que vai do Sudeste Asiático até ao Cáucaso, e da Ásia Central até ao Médio Oriente. A concorrência entre os dois países nunca deixou de existir. Contudo, nós sabemos que os dois países também cooperam ao nível de tratados em que a segurança é a questão principal, tais como o Tratado de Sa´dabad e o Pacto de Bagdade. Os dois países participam também em organizações focadas na economia e no comércio, como a RCD, a D-8 e a ECO.

Neste contexto, a visita do presidente da República da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, que há uns dias visitou o Irão, fez com que a atenção do Médio Oriente se virasse para as relações turco-iranianas. Nós podemos afirmar que a dimensão de segurança é a principal questão que une os interesses da Turquia e do Irão nos últimos tempos, tendo em conta a visita do chefe do Estado Maior da Turquia, Hulusi Akar, que esteve no Irão antes da visita do presidente Erdogan. A deslocação de Akar ao Irão, foi também precedida da visita do chefe do Estado Maior do Irão, Mohammed Bakri, que veio até à Turquia no mês de agosto.

O curso atual dos acontecimentos que se dirige no sentido de uma divisão do Iraque e da Síria, faz com que Ancara e Teerão se reaproximem. A abordagem comum adotada depois do referendo ilegal realizado no norte do Iraque, faz aumentar o número de comentários indicando que esta reaproximação poderá assumir uma maior dimensão. Neste contexto, a visita a Teerão do presidente Erdogan da República da Turquia, para participar na 4ª reunião do conselho supremo de cooperação, parece importante aos olhos da opinião pública. Um grande número de acordos, em particular nos setores do turismo e da banca, bem como em termos da cooperação económica ao nível do gás natural, foram assinados durante a visita do presidente Erdogan. Adicionalmente, o volume comercial entre a Turquia e o Irão, orçado em 30 mil milhões de dólares e o uso das respetivas moedas nacionais neste comércio, foram outros dos temas abordados durante a visita do presidente turco ao Irão. Esta visita serviu também para definir qual a política comum que os dois países irão adotar em relação à Administração Regional Curda do Iraque, e como serão geridas as zonas de arrefecimento do conflito na Síria. Esta situação mostra que os dois países estão à procura de uma cooperação mais estreita nos domínios da defesa e da troca de informações.

Ancara e Teerão estão determinados em fazer com que Barzani renuncie ao seu erro, ao apoiar as medidas tomadas por Bagdade contra Erbil. As declarações e decisões anunciadas por Erdogan durante a sua reunião com os líderes iranianos em Teerão, é a prova disto mesmo. Por exemplo, a abordagem comum adotada pelos líderes iranianos em relação à declaração de Erdogan, segundo o qual Israel e os Estados Unidos estão por detrás desta iniciativa tomada por Barzani, é digna de registo. Outra das decisões tomadas durante as conversações em Teerão, foi o agravamento das sanções contra a administração de Barzani. Estas novas e pesadas sanções são de momento ainda desconhecidas. A Turquia em particular permanece para já prudente e deverá manter esta abordagem.

As organizações terroristas como o PKK/PYD, apoiadas e usadas como instrumentos por certos países ocidentais nas suas políticas em relação ao Médio Oriente, alcançaram algumas conquistas no Iraque e na Síria. Estas conquistas fizeram com a Turquia e o Irão pusessem de lado as suas diferenças de ponto de vista sobre estas questões, e passassem a cooperar no domínio da segurança. A este nível, é preciso que os aliados da Turquia que fecham os seus olhos aos interesses vitais da Turquia na região, comecem a perceber que esta situação irá empurrar Ancara para uma cooperação mais próxima com Moscovo e Teerão. Isto porque a situação atual representa uma situação existencial para a Turquia. Os aliados da Turquia devem compreender esta situação e fazer o que a aliança precisa. Caso contrário, será obrigatório que a Turquia se aproxime do Irão e da Rússia.

A Turquia e o Irão estão atualmente conscientes da ameaça que paira sobre eles na região. E por este motivo a cooperação entre os dois países vai continuar. As necessidades comuns na questão da segurança aceleram a reaproximação. A luta pela superioridade entre os dois países na Síria e no Iraque, fez com que se reforçasse a organização terrorista PKK, que ameaça a integridade territorial dos dois países. Esta poderá ser a razão pela qual a cooperação entre os dois países se tornou uma obrigação. Neste contexto, poderão a Turquia e o Irão pôr de lado a sua concorrência histórica e caminhar em direção a uma aliança estreita? Os desenvolvimentos que irão ter lugar na região no período seguinte, vão dar a resposta.



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