Identidades destroçadas

Para onde se arrasta a humanidade? A Perspetiva Global, um programa do Prof. Dr. Kudret Bulbul.

Identidades destroçadas

Tendo em conta a nossa época e os desenvolvimentos a que assistimos, verificamos que nos fazem lembrar o período antes da I Guerra Mundial. Se não tirarmos ensinamentos do que se viveu, estamos condenados a “repetir a história”.

Há apenas um século, as novas identidades e as novas potências quase devastaram o mundo. Começou uma guerra contra as identidades dos impérios. Apareceram novas identidades desgarradas, sem história e criadas em todo o lado. Eventualmente, todos os impérios se dissolveram, incluindo o otomano, o britânico e o austro-húngaro.

Infelizmente, o mundo não pode desfazer-se dos problemas causados pela Revolução Francesa e pelo nacionalismo. Esta doença continua a envenenar gradualmente todo o mundo. Não bastaram as duas guerras mundiais que o mundo sofreu, este fantasma acontece em todos os países.

Quando observamos à nossa volta, presenciamos uma situação semelhante há que se viveu antes da I Guerra Mundial. Os Balcãs, a Europa de Leste e o Médio Oriente estão destroçados, e a Espanha para lá caminha…

E não são apenas os estados que se desintegram ou estão a caminho de se desintegrar. Todas as regiões se estão a transformar ou prestes a transformar, em áreas prontas a serem exploradas pelas potências atomizadas e pelas entidades mortais recentemente criadas. Com o fim da época dos impérios, o mundo não encontrou a paz com as novas entidades e os novos estados. Pelo contrário, todos os países com mais peças estão agora mais desprotegidos contra os ataques dos atores globais e dos imperialistas.

Para onde arrastam o mundo as potências em dissolução? Onde acabará a desintegração étnica e sectária?

Na verdade, a humanidade sabe muito bem desta situação. É muito bem conhecido o estado da humanidade, que se escravizou e que se vendeu e comprou por terra, na época do feudalismo na Europa.

Quão longe se podiam movimentar livremente as pessoas durante a época dos beylicatos da Anatólia, antes do império otomano?

Quem mais poderá ganhar com a desintegração dos estados, das identidades e dos pertences, e quem mais dificulta a vida quotidiana em termos económicos, comerciais, de saúde, educação e viagens?

As pessoas ficam mais sozinhas quando se desintegram as grandes entidades, que socializam as pessoas e as fazem sentir como uma peça de algo maior na sociedade. Esta situação provocaria muitos problemas de segurança, a par de problemas psicológicos, sociológicos e patológicos. As redes criminais e as organizações terroristas face aos quais todos os estados estão expostos, são organizações terroristas independentes ou compostas por pequenos grupos.

O que é mais perigoso do que os pequenos grupos ou pessoas que criam sobre si próprios, dentro de um pequeno mundo ou pessoa isolada, todos os valores com identidades e pertences destroçados e atomizados?

E será que não basta o preço pago pela nossa região, pela humanidade e pelo mundo? Quanto mais terão que pagar as nações e as regiões inocentes, desintegrando-se mais por causa do racismo étnico e sectário? Vão continuar a enganar-se pelo jogo do “conquistar para dividir”, oriundo dos focos globais de maldade? Este racismo étnico e sectário não é racional nem humanitário, nem moral nem islâmico.

Por isso, temos que dizer e gritar como o famoso poeta turco Necip Fazil Kisakurek: “Parem as multidões, esta rua é um beco. E levantei o meu braço como se fosse uma tesoura”. Devemos criar uma visão e uma ideia que assegure mais a integração, em vez de desintegrar e destroçar ainda mais a humanidade. Precisamos de mais partilha, e de uma postura e de uma virtude moral com base em princípios, em vez do egoísmo. Devemos dar mais sentido aos valores globais, humanitários, morais e islâmicos, e viver em paz e prosperidade. Devemos desenvolver políticas a este respeito.

Mas como?

Na realidade, as respostas são conhecidas. Mas é difícil aplica-las. Devem ser aplicadas com paciência.

Em primeiro lugar, todos os países devem seguir políticas mais inclusivas para os diferentes grupos étnicos, ideológicos, sectários e religiosos dentro de si mesmos. Estas políticas devem ser seguidas omitindo os maus exemplos e as condenações, segundo a expressão dervixe de Yusuf Emre: “Deve ser mais agradável para a criação do que para o Criador”.

Este tipo de políticas devem ser seguidas, mas não bastam. Por isso, há algo mais importante: os direitos internacionais e os direitos e as liberdades fundamentais não devem ser usados como uma ferramenta de política externa. Os focos de maldade, que consideram tudo em alguns países como um aparelho estratégico, não devem considerar as diferenças em outros países como a forma mais barata de prejudicar esses países. Estas diferenças não devem ser consideradas como uma ferramenta de guerra para atingir esses países. Os países que albergam dentro de si próprios diferentes identidades e culturas, devem estar em alerta contra este tipo de objetivos dos atores globais. Não devem arrastar o seu próprio povo para os braços destes atores com políticas erradas.

Eu sei que as minhas expressões são olhadas por muitas pessoas como sendo apenas um desejo, tendo em conta a política real e a política externa baseada nos interesses de hoje. Os que pensam desta forma, têm razão tendo em conta os objetivos e as ações dos atores imperialistas globais. E então? Não fazemos nenhum apelo baseado nos valores, e dizemos que esta é a política real do mundo atual? Não convidamos a humanidade para a bondade comum para todo o mundo?

Não devemos esquecer que sem dúvida há um lado prudente muito importante no interior e no exterior do estado em cada país, apesar de não ser capaz de determinar a macroeconomia. E no longo prazo, ganharão sempre as pessoas boas.

Este programa foi escrito pelo Prof. Dr. Kudret Bulbul, decano da Faculdade de Ciências Políticas da Universidade de Yildirim Beyazit em Ancara



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