A América Latina e a crise da Síria

Quando a esquerda perdeu a sua influência política no continente depois de 2 015, o caso da Síria deixou de ser visto como um projeto imperialista, mas sim como uma tragédia humana. A Análise de Mehmet Ozkan.

A América Latina e a crise da Síria

A Atualidade da América Latina / Capítulo 13

Na minha opinião, a América Latina é um dos continentes onde a crise síria, iniciada em 2 011, foi mais mal percebida. De forma interessante, e apesar da tecnologia e dos muito meios de comunicação disponíveis no século XXI, para muitos países da América Latina a Primavera Árabe foi entendida de forma normal, como se fosse uma redefinição da região por parte do Ocidente.

Os poderes do continente com tendência de esquerda em particular, usaram o mais possível esta ideia. E a maior parte das pessoas no mundo árabe nunca conseguirá perceber como pôde a América Latina fazer um tão mau julgamento acerca do Médio Oriente. Como se deve ler a abordagem da América Latina à Síria?

Quando começou a crise na Síria, o processo focou-se totalmente nos esforços para derrubar Khadafi na Líbia. Depois da queda de Khadafi na Líbia, a situação tornou-se ainda mais grave na Síria. Todos os poderes de inclinação esquerdista na América Latina, incluindo Chávez, passaram a mensagem de que a queda de Khadafi foi uma operação internacional, e houve até muitos meios de comunicação naquela altura a dizer que Khadafi tinha fugido para a Venezuela. Apesar das diferenças, este tipo de opinião estava parcialmente correto. Mas o problema real da maior parte dos líderes latino-americanos, foi terem seguido este ponto de vista também no caso da Síria. Mas porquê?

Entre 2 012 e 2 015, deu-se pouco a pouco o processo de transição para uma tendência de direita na política da América Latina. Enquanto a Colômbia - um dos países com governo de direita – se dedicava ao seu processo de paz e se retirava parcialmente das questões políticas mundiais, o Brasil, e depois da transição de Lula para Rousseff, concentrou-se apenas nas suas questões internas e isolou-se da política externa. O líder da época na Venezuela, Hugo Chávez, o líder equatoriano Rafael Correa, a presente Christina Kirchner da Argentina e o presidente Evo Morales da Bolívia, olharam todos para o Médio Oriente numa perspetiva contra o Ocidente. Para estes líderes, a Síria foi um novo local da luta do imperialismo ocidental, e por isso era preciso apoiar a Síria. Neste contexto, a Venezuela enviou para a Síria diesel e armas de uso militar em 2 012. Houve também outros países a apoiar diretamente a Síria nas plataformas internacionais, com base na mesma perspetiva de luta contra o imperialismo ocidental.

Neste processo, é preciso dar especial atenção à rede de relações do Irão no continente da América Latina. Durante a presidência de Ahmedinejad no Irão, o líder iraniano visitou os países da América Latina um total de 8 vezes, tendo essa diplomacia alcançado resultados eficazes. Relativamente aos desenvolvimentos no Médio Oriente em particular, os líderes sul-americanos começaram a ter relações diretas com o governo iraniano. E desta forma, foi feita oficialmente em todo o continente propaganda sobre o Médio Oriente e acerca da política mundial sob a perspetiva do Irão, em espanhol, através da Hispan TV, criada pelo Irão durante aquele período. Quando a influência do Irão se juntou às opiniões contra o Ocidente, para os líderes latinos a Síria passou a ser vista apenas como mais um projeto imperialista normal.

No caso de se estar a perguntar o que fizeram durante este período os líderes políticos de direita na América Latina, a maior parte deles adotou uma atitude introvertida. Devido às suas relações com o Ocidente, olharam à distância, tal como os ocidentais, para a questão da Síria. Não fizeram grandes análises sobre a situação para não se tornarem alvos. E também não sentiram necessidade de contrariar as opiniões contra aqueles que defendiam o alargamento da posição da esquerda.

Quando a esquerda perdeu a sua influência política no continente depois de 2 015, o caso da Síria deixou de ser visto como um projeto imperialista, mas sim como uma tragédia humana. Em particular, a crise migratória que aconteceu na Europa e o drama dos refugiados sírios, fizeram com que os países da América Latina dessem pela primeira vez a cara por uma solução política para a Síria. Neste contexto, e segundo os dados da ONU, vieram para o continente como refugiados 5 413 sírios. 87% deles escolheram o Brasil, tendo os restantes ido para o Equador, Uruguai e Paraguai. O verdadeiro motivo por detrás da escolha do Brasil, teve que ver com a presença de população árabe no país, estimada em 8 milhões de pessoas. O Brasil foi também o país que mais facilmente abriu a porta aos sírios, cuja adaptação cultural não seria difícil.

Pensa-se que tenham ido 90 sírios para o Equador. Mas a maior parte deles chegou ao país em condições difíceis. A chegada em aviões de transporte de carga, fez com que muitas pessoas que escolheram o país tivessem passado por muitos problemas. Com uma espécie de espetáculo, em setembro de 2 015 o Uruguai levou para Montevideo 5 famílias, mas esta abertura humanitária também não teve eco. Os refugiados sírios no Uruguai disseram que não foram cumpridas as promessas que lhes fizeram, e a ajuda dada não foi suficiente para sobreviver. Eles acabaram por ir para outros países, dizendo que as condições de vida nos campos de refugiados do Líbano eram melhores.

A maioria dos refugiados sírios que vieram para a América Latina, eram cristãos. E não foram dadas informações claras sobre como foram escolhidos. A maior parte dos que vieram para este continente, pagaram um preço muito alto e só conseguiram ser aceites após um longo planeamento e devido aos esforços de amigos ou familiares.

Atualmente, para os latinos, a situação política na Síria evoluiu de uma ideia contra o Ocidente, para uma dimensão humanitária que se traduziu no apoio aos refugiados em 2 015, e que se concretiza numa atitude política de esperar para ver. A saída de cena dos poderes de esquerda fez reduzir a influência do Irão no continente, e os novos poderes na América Latina dirigiram os seus interesses para as questões de política interna, em vez das declarações de grandes objetivos.

A chegada dos sírios ao continente, apesar de em números reduzidos, representou uma das ondas da onda migratória árabe que começou no século XIX. Existe uma séria necessidade de criar elos de ligação que possam servir de recurso confiável sobre a geografia próxima do Médio Oriente e da Turquia.

Esta foi a opinião sobre este assunto do Doutor Associado Mehmet Ozkan, membro do corpo académico da Academia de Polícia e Coordenador para a América Latina da Agência de Cooperação e Coordenação da Turquia (TIKA)



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